Preservação de patrimônio histórico abre Seminário Olhares Sobre a Cidade

31 outubro 2018

Preservação de patrimônio histórico abre Seminário Olhares Sobre a Cidade

“Olho para o mapa da cidade como quem examinasse a anatomia de um corpo.” Ao citar o poeta gaúcho Mário Quintana, o museólogo e professor Cicero Antônio Almeida propôs reflexões sobre as políticas públicas para o patrimônio histórico do Brasil e a memórias das cidades. Sua apresentação abriu a programação de palestras da segunda edição do Seminário Olhares Sobre a Cidade, que ocorreu nessa terça-feira (30/10), reunindo cerca de 130 pessoas no Memorial Luiz Carlos Prestes, em Porto Alegre (RS).

No início do evento, a presidente do Sindicato dos Arquitetos no Estado do Rio Grande do Sul (Saergs), entidade que promove o evento, Maria Teresa Peres de Souza, lembrou da importância de discutir os aspectos da preservação de obras históricas no país. “O patrimônio só se perde uma vez. Não tem como resgatar algo que se perdeu”, afirmou. Para Maria Teresa, os problemas das cidades não devem ser constatados apenas por arquitetos, mas, sim, por toda a sociedade. Em concordância, o presidente da Federação Nacional de Arquitetos e Urbanistas (FNA), apoiadora do evento, Cicero Alvarez, citou que esse trabalho deve ser construído com outras entidades, movimentos e pessoas. “Acredito que, acima de tudo, o objetivo desse momento é comentar o nosso olhar sobre uma pauta que não é mais só nossa”, destacou.

Foto: Carolina Jardine

Foto: Carolina Jardine

Em sua apresentação, Almeida mostrou exemplos de obras históricas que sofreram com o descaso e os entraves dos órgãos públicos, destacando o Museu Nacional do Rio de Janeiro que, recentemente, sofreu um incêndio que destruiu seu acervo logo após completar 200 anos de existência. Para o museólogo, outros dois incêndios simbólicos ocorreram na sequência: a extinção do Instituto Brasileiro de Museus e, depois, o indicativo de extinção do Ministério da Cultura. “Um dos fatores dessa problemática é imaginar a possibilidade de transigir melhor com as medidas de intervenção nos prédios tombados, visando a prevenção contra incêndios”, afirmou.

Nesse sentido, sua participação no evento foi uma forma de informar o que está acontecendo no Rio de Janeiro, para que a tragédia não caia no esquecimento. “O meu medo é que a gente entenda que acabou, mas não. Essa é uma fase de gestão de riscos”, afirmou, destacando o trabalho que vem sendo feito no sentido de recuperar a memória do local e desenvolver projetos de prevenção contra incêndios em edificações de patrimônios históricos, além da reação coletiva em prol do Museu, demonstrando preocupação com a obra. “Essa reação nos faz refletir: como aquele local com tanto apreço pela sociedade, foi desprezado a esse ponto?”, questionou Almeida.

Conforme destacou o arquiteto e urbanista e também diretor do Saergs, Eduardo Hahn, debatedor da mesa, a realidade do Rio de Janeiro é a realidade de Porto Alegre, de São Paulo e também de pequenas cidades do interior do Rio Grande do Sul. Para ele, há uma incoerência na escolha de investimentos na área de patrimônio cultural. “Temos escolhas em investimentos, em projetos que recebem milhões de reais e outras estruturas que não recebem nada”, afirmou, usando de exemplo o Museu Nacional. “É um símbolo da forma como o patrimônio é tratado a nível nacional”. Como saída dessa realidade preocupante, Hahn afirmou que o ideal é que se construa, naturalmente, um movimento de preservação, que não seja imposto. “Educação é a chave. Não adianta apenas discutir esses aspectos dentro das universidades”, concluiu.

Foto: Carolina Jardine

Foto: Carolina Jardi

A iniciativa tem patrocínio do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio Grande do Sul (CAU/RS) e apoio da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (AsBEA RS), Associação de Arquitetos de Interiores do Brasil/RS (AAI Brasil/RS), Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB RS), Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA) e Memorial Luiz Carlos Prestes.

© SAERGS · Por Aldeia