Espaço público criminalizado é agravante da violência nas cidades

07 agosto 2019

A criminalização dos espaços públicos vem sendo um fator de agravamento da violência nas cidades brasileiras e retroalimentando o próprio movimento de esvaziamento das cidades brasileiras. Segundo o sociólogo Adão Clóvis Martins dos Santos, o discurso de violência fortalece a sensação de insegurança, o que obriga a sociedade e colocar o direito à segurança acima de outros direitos, como o de acesso à cidade e de ir e vir. “Em nome do direito à segurança abrimos mão do direito de ir e vir e passamos a ter medo dos espaços públicos”.

O especialista palestrou durante o Seminário Olhares Sobre a Cidade, promovido nesta quarta-feira (07/8) pelo Sindicato dos Arquitetos do RS (Saergs) com patrocínio do CAU/RS. “Nos últimos anos, o retrato das cidades é composto de muros, cercas, condomínios fechados e do esvaziamento de espaço público. Tudo isso contradiz experiências históricas. Não há sistema de segurança melhor do que a ocupação das ruas”, completou Santos.

Acompanhando os debates, a presidente do Saergs, Maria Teresa Peres de Souza, citou que esse movimento agrava, inclusive, a difusão da história das cidades, porque distancia os cidadãos dos prédios e monumentos históricos. O debate ainda tratou dos prejuízos visíveis em Porto Alegre com o fim do Orçamento Participativo, uma iniciativa pioneira realizada na Capital gaúcha e que serviu de modelo para diversas regiões do mundo.

Santos também falou sobre a relevância da ação dos arquitetos e urbanistas como agentes de democracia nas cidades e citou que isso depende de formação, o que chama atenção para a qualidade das instituições de ensino. Mediando o evento, o arquiteto e urbanista Bruno Euphrasio de Mello, pontuou a importância do ensino agir como “caixa de ferramenta” para que os estudantes atuem no mercado por ações mais inclusivas e democráticas.

O sociólogo ainda fez um panorama geral sobre a ascensão do capitalismo e do público e privado no mundo. Segundo Santos, com ampliação do poder dos sindicatos e sua posterior pressão nas bases das empresas de capital privado, governos também tomaram medidas para freá-los diante das políticas de bem-estar social, como a produção deliberada do desemprego em massa e a criação de reforma fiscal para desonerar o capital. “Essas medidas permitiram, num momento de queda do crescimento econômico, a elevação do lucro das empresas”, citou.

Mas criar espaços públicos democráticos e que promovem a inclusão é um projeto que envolve poder público, profissionais e a própria sociedade. Segundo Adão Clóvis Martins dos Santos, o Plano Diretor de uma cidade só pode perseverar com arquitetos e urbanistas comprometidos com as cidades.

Crédito: Vitorya Paulo

Na foto: Adão Clóvis Martins dos Santos

© SAERGS · Por Aldeia