Cooperativismo de plataforma é opção ao trabalhador, mas impõe desafios

14 outubro 2020

Cooperativismo de plataforma é opção ao trabalhador, mas impõe desafios

O cooperativismo de plataforma vem sendo visto como a mais nova resposta da classe trabalhadora ao movimento de uberização, aquele em que uma internacionalizada ferramenta digital congrega e explora mão de obra, como fez a Uber com o transporte de passageiros. Nessa proposta alternativa, entidades sindicais e associativas ganham respaldo ao congregar profissionais em ações unificadas de resistência ao modelo imposto pelo mercado em um ambiente cooperativo em prol da profissão, mas que reúne inúmeros desafios. A tendência foi pontuada pelos participantes de live realizada nesta terça-feira (13/10) durante o Fórum Saergs no Mundo do Trabalho.

“Temos que pensar no cooperativismo de plataforma, em um modelo de união de trabalhadores. Precisamos ampliar uma organização que dê conta dessas novas morfologias do trabalho, fortalecer as organizações  de classe, e nos colocarmos em movimento em projetos que valorizem os profissionais de arquitetura. A uberização é o avanço do capitalismo sobre o trabalho, uma forma de ampliar a mais-valia. O único movimento no sentido oposto é a nossa organização. A solução está com vocês”, sugeriu o pesquisador da Unicamp Marco Gonsales, estudioso do impacto dessas novas condições nas relações de trabalho. Promovido pelo Saergs, o Fórum tem o patrocínio do CAU/RS e apoio da FNA, IAB, Fenea e CUT.

Em expansão principalmente nos Estados Unidos e Europa, o modelo de reação dá mais autonomia à categoria para negociar seu próprio trabalho. “Quem consegue dar o preço para um empresa que tem disponível 1 milhão de arquitetos em uma rede global?”, provoca Gonsales. Além disso, argumenta ele, quando autônomos precisam se conectar a uma plataforma, o preço, o cliente e o prazo passam a ser aspectos definidos pela própria interface e não pelo profissional. “É um novo assalariamento, mas muito mais precarizado do que o dos anos 60”, comparou. O principal problema, indica o especialista, é a disputa que esses sistemas paralelos terão que travar com as multinacionais. “Essas grandes empresas nunca tiveram tão vulneráveis como estão agora. Porque ficou fácil para nos organizarmos em outra dimensão. A plataforma é o principal meio de produção. Não é mais a fábrica”, disparou. E indicou que talvez sejam os sindicatos os principais agentes de união necessários para o desenvolvimento desses novos modelos de negócio.

O caminho que leva a esse novo platô é algo que, segundo o pesquisador, “ainda estamos tentando entender”. As primeiras greves de aplicativos de alimentação e dos operadores de Uber foram realizadas recentemente e marcaram um momento de organização de categorias que leva em conta uma interação internacional. O olhar global sobre os danos dessas plataformas será tema de novo encontro do Fórum nas próximas semanas e que contará com arquitetos e urbanistas em atuação em diversos países.

Mediando o debate desta terça, o presidente do Saergs, Evandro Babu Medeiros, ressaltou a necessidade de resgatar a sensação de pertencimento a uma classe. “O brasileiro vai continuar sendo solidário só no câncer?”, provocou ele, parafraseando o dramaturgo Nelson Rodrigues. Vice-presidente do IAB Nacional, o arquiteto e urbanista Rafael Passos, lembrou que a profissão é diversa e cheia de contradições e que as entidades têm muito a avançar nas formas de interação e diálogo com suas bases. “Somos subempregados de nós mesmos”, disse, referindo-se à relação do profissional com sua própria carreira e com os colegas. Segundo ele, a Arquitetura e o Urbanismo passaram por mudanças constantes ao longo das últimas décadas. Temas como a Athis, que por muitos anos foram vistos como ações socialmente corretas, são agora prioridades como política profissional. Por outro lado, argumentou Passos, muitos arquitetos ainda estão focados apenas nos 7% da população que declara já terem contratado um arquiteto e urbanista em suas vidas. Um problema que, reconhecidamente, inicia-se ainda na formação dos profissionais na universidade.

A precarização do ensino também foi referendada pela presidente da FNA, Eleonora Mascia, ao alertar para a situação que os docentes de Arquitetura e Urbanismo vêm enfrentando com jornada excessiva durante a pandemia. Vários casos, informa ela,  estão sendo reportados entre os sindicatos filiados à federação. “Tivemos denúncias referentes à carga horária, turmas muito grandes e sobre a fragilidade nas condições de trabalho. As universidades, principalmente as privadas, estão criando condições de precariedade, demitindo professores e fazendo contratos mais precários com remuneração mais baixas. A gente sabe que a vida não voltará a ser como era antes. A mudança é constante e precisamos estar preparados para isso”, argumentou, convidando os arquitetos e urbanistas a procurarem seu sindicato como auxílio nesse momento difícil.

O pesquisador da Unicamp ainda fez um relato sobre como, ao longo dos anos, o mercado conduziu arquitetos e urbanistas para uma situação em que o trabalhador foi estimulado a empreender como alternativa para condições supostamente mais promissoras. “Isso foi gerando uma insatisfação porque as pessoas se deram conta de que se pode ganhar mais, mas não tão mais assim. Que é muito complexo, se trabalha mais e se tem mais responsabilidade”, salientou Gonsales.

A live completa pode ser conferida clicando aqui.

Crédito da foto: Reprodução/Youtube

© SAERGS · Por Aldeia