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Arquitetos precisam de união corporativa pelo futuro da profissão

Arquitetos e urbanistas precisam de uma união corporativa para defender com mais força suas bandeiras e fortalecer a profissão. Para isso, é essencial atacar de frente questões éticas que desafiam o dia a dia e prejudicam a todos como a cobrança de Reserva Técnica (RT) e o não-pagamento do Salário Mínimo Profissional (SPM), por exemplo. “Precisamos debater as questões que precisam ser debatidas sem mais omissões”, conclamou Fábio Müller, professor e coordenador do Curso de Arquitetura da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), ressaltando que existe uma cultura que impede os profissionais de agirem como agentes de controle da própria profissão. O assunto foi tema de live do Fórum Saergs no Mundo do Trabalho, realizada nesta terça-feira (10/1) pelo Sindicato dos Arquitetos no Estado do RS. A programação tem o patrocínio do CAU/RS e apoio da FNA, IAB, Fenea e CUT. “A participação no conselho e nas entidades é o viés fundamental para um mútuo auxílio, para debatermos as questões e, em conjunto, encontrarmos soluções”, completou Müller. Em uma noite que contou com professores das principais universidades gaúchas, debateu-se a força de uma orientação ética dos estudantes como fator essencial para garantir um mercado de trabalho mais saudável e a redução da exploração entre os próprios colegas. Os docentes sugeriram aos jovens arquitetos que participem dos movimentos de representação. “Se associe não só para ajudar a entidade, mas para se ajudar também. Porque a gente não consegue trabalhar sozinho”, ponderou a professora da Ufrgs Daniela Fialho. E disse mais: “é essencial sairmos do individualismo que a sociedade nos impõe”. Para ela, há três fatores que podem ajudar nesse processo: o CAU, o Código de Ética e as NBRs. Conclamando por mais empatia, o arquiteto e urbanista, diretor do Saergs e mediador da live, Rodrigo Barbieri, avaliou que muito do precário que se percebe no trabalho “tem a ver com a falta de visão da profissão de muitos colegas”. Em sua participação, a professora Adriana Dutra, da Feevale, reforçou que é preciso estimular o debate sobre ética desde o início do curso. “Temos que pensar o tema e o trazer para reflexão dos alunos desde que entram na universidade. Ética é uma questão cultural”. E mencionou que o novo currículo da Feevale já abarca essa necessidade de trabalhar mais questões de moral e ética de forma pulverizada. “A gente precisa de mais discussões como essa”. Com a experiência de quem ministra a disciplina há muitos anos e tem sua profissão resguardada pela OAB, a advogada Àgueda Bichels, da Unisinos, reforçou a relevância da fiscalização, das denúncias e de se acabar com a cultura de aceitar questões controversas com naturalidade. E mencionou exemplos que vão da cola na sala de aula até a assinatura de projeto que outros. Assuntos que, segundo ela, sempre geram debates acalorados em sala de aula. “Eu trago para a classe decisões dos tribunais. Aí, a gente tem que conversar e ver como faz”. Àgueda ponderou que alunos que colam na universidade estão fragilizando a própria formação e passando uma imagem equivocada aos colegas. “Se na faculdade ele fez isso, será que no mundo profissional vai fazer diferente?”, questionou. Para despertar os alunos para um tema tão denso e controverso quanto ética e legislação, Muller diz que a estratégia é partir das curiosidades e experiências dos próprios estudantes. Um dos temas que sempre chama atenção é o pagamento de Reserva Técnica. A prática – muito usual no passado– representa o recebimento de comissões pelo arquiteto para indicação de prestadores de serviços e fornecedores. Apesar de condenada atualmente, por muito foi aplicada e ainda é. “Ela tem um efeito nefasto nos honorários profissionais”, alertou Muller, ressaltando que, recebendo RT, muitos profissionais podem reduzir os honorários e conquistar o cliente. Perde o contratante que paga mais por produtos e serviços e perdem os próprios arquitetos que veem o preço de seus contratos aviltados. Outro assunto que chamou atenção durante a live foi o debate sobre direitos autorais. Por lidar com um produto que é resultado de um processo criativo, o arquiteto tem direito à autoria, o que, geralmente, não é respeitado nem pelos colegas que fazem intervenções em edificação sem ao menos consultar o autor. O local de debate de assuntos importantes como esses é na academia e com os estudantes, defendeu a professora da PUCRS Cristiana Bersano. “Só falando sobre os assuntos é que vamos conseguir valorização. E que honorários que não sejam impactados frente a outros ganhos escusos”, disse, enfática. Para ela, é essencial chamar os estudantes para sua responsabilidade perante a sociedade, alertando que é da conduta de cada um que depende o destino de todos. Um ensinamento que vem de casa, da forma como se comportam na família, no trânsito ou nos estágios. Para ela, é preciso formar novos profissionais com consciência de coletivo e de que o colega é parceiro profissional, não alguém prestes a roubar suas ideias. “Temos visto mudança de mentalidade nesse sentido”, informou, otimista com base em sua vivência em sala de aula. Confira a live completa clicando aqui.