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A universidade como forma de buscar cidades menos heteronormativas 

Gabriel Pedrotti sabia muito bem como era a vida de um arquiteto muito antes de entrar na graduação. Filho de uma professora de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ele cresceu escutando os desafios que rodeiam a profissão, sobretudo na docência. Mesmo assim, decidiu seguir os mesmos passos da mãe e se prepara para, em breve, também ser professor. Atualmente, o profissional faz doutorado sobre a relação das pessoas LGBTQIA+ com a cidade e o impacto disso na construção de uma sociedade menos heteronormativa.

Em 2020, no auge da pandemia de Covid-19, Pedrotti decidiu criar a página CidadeQueer no instagram. O intuito é gerar mais “burburinho no tema de pesquisa”, compartilhar momentos e fomentar a qualidade do debate ao reunir conteúdos que promovem o imaginário da cidade LGBTQIA+. “A pandemia mostrou a necessidade de existir militância, também, no mundo virtual”, afirma. Principalmente no que se trata do papel do arquiteto e urbanista na luta por cidades mais seguras, inclusivas e que promovam a convivência da sociedade com a comunidade queer. 

Formado em Arquitetura e Urbanismo pela UFSM, o catarinense de 34 anos se mudou para o Rio de Janeiro (RJ) em 2014, onde fez mestrado em paisagismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e, atualmente, faz doutorado em urbanismo na mesma instituição. A ideia era seguir com as pesquisas realizadas no mestrado, mas no fim do primeiro ano de estudos, depois de repensar sobre as pautas que acreditava ser discutidas, ele decidiu mudar o tema e começou a pesquisar sobre algo que vive diariamente: as relações das pessoas LGBTQIA+ com o território e como ambos se influenciam e se transformam. “Eu queria dar a minha contribuição, como homem gay, para a academia”, explica. 

“A pesquisa, na maioria das vezes, é vista com olhos tortos por quem exerce e trabalha na parte prática”, diz. No entanto, Pedrotti defende a importância de pensar a arquitetura no campo das ideias e, assim, aperfeiçoar o planejamento e a execução. É na academia que o debate sobre a presença de novos protagonistas dentro da cidade nasce e é realizado com mais embasamento. “Meu sonho é um dia conseguir conciliar isso – ser metade professor e metade arquiteto no mercado de trabalho, para levar as ideias debatidas em sala de aula para a realidade dos canteiros de obras. Nossa área ainda tem muito a crescer e incluir, e não adianta apenas existirem pessoas LGBTQIA+ nela, precisamos também enxergar essas pessoas em espaços de poder”. 

O profissional, no entanto, conta que dentro das próprias instituições de ensino existe quem não apoia a pesquisa sobre gênero e sexualidade. “Eu faço parte de um programa que é referência no país, e mesmo assim, as pessoas mais tradicionais tiveram uma resistência sobre esse ser um tema válido”, expõe. Ao mesmo tempo, existem vários colegas e professores que levantaram a bandeira e apoiaram a ideia. Até porque, segundo o arquiteto, a relação da sexualidade com a cidade é um tema que outras áreas, como geografia e antropologia, já estudam há anos e a arquitetura não pode mais ficar para trás.

A sociedade ainda é muito patriarcal e heteronormativa e isso se reflete dentro do urbanismo. Um exemplo disso é a violência contra a comunidade queer. Dados do Dossiê de Mortes e Violências contra LGBTI+ no Brasil revelou que no ano de 2021 houve, pelo menos, uma morte por dia de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas intersexo .“Dentro das faculdades, e das entidades da categoria, é muito comum vermos homens, brancos, héteros e cisgêneros ocupando cargos de docência ou liderança, mesmo sabendo que a maioria dos profissionais são mulheres, por exemplo”, fala. A luta de Pedrotti é tentar mudar um pouco esse cenário e mostrar que a cidade precisa ser pensada também pelo viés da diversidade e ele acredita que essa mudança pode vir das salas de aulas.

Afinal, apesar dos desafios, há uma expectativa de mudança no horizonte. O pesquisador conta que, aos poucos, os estudantes têm despertado o interesse em debater e escrever sobre a pauta. Para esses alunos, a página CidadeQueer é um poço de informações e suporte aos estudos de outros acadêmicos da graduação e pós-graduação. “A ideia era exatamente essa: que eu deixasse de falar sozinho e que existisse um canal de troca de informações”. Hoje, a página possui quase 3 mil seguidores e o que Pedrotti mais sente é que existe uma nova geração de profissionais se formando muito mais conscientes, engajados em defender a pauta e dispostos a promover o debate sobre o futuro das cidades. Para ele, esse é em essência o papel do arquiteto: ser um agente político e transformador na sociedade.

Coincidentemente, o CidadeQueer comemora dois anos de existência neste mês de junho, que é o mês do orgulho LGBTQIA+ e o mês de discutir ações e caminhos para mudar as políticas públicas e as cidades brasileiras pela inclusão das minorias. Pedrotti ainda acredita que “mudar a formação dos profissionais é a primeira porta para viabilizar um futuro mais plural”. 

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Clevio Rabelo
Anne Ranyelle Gonçalves

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