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Para arquitetos, o ataque ao patrimônio brasileiro é um ataque à democracia

“A brutalidade dos ataques na Praça dos Três Poderes é consequência de uma mentalidade autoritária que busca destruir nossa democracia e destruir o patrimônio cultural que nos caracteriza como nação”. Assim, o analista legislativo e arquiteto da Câmara dos Deputados e suplente do Conselho Fiscal da Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA), Danilo Matoso, avalia as ações terroristas ocorridas no último dia 8 de janeiro, em Brasília (DF). O ataque orquestrado ao Congresso Nacional, ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Palácio do Planalto causou diversos danos às edificações, às obras de arte integradas e aos móveis de valor histórico e artístico inestimáveis.

A Praça não é apenas o centro das decisões políticas do Brasil, mas também peça central no conjunto urbano da Capital Federal, projetado por Lucio Costa, em 1957, e listado pela Unesco como Patrimônio da Humanidade em 1987. De acordo com Matoso, o edifício mais afetado foi a sede do STF, que devido ao menor tamanho, teve os três pavimentos de sua torre principal completamente destruídos. “Esses atos são a culminação de uma política de ataque ao conjunto de nossa democracia, em geral, e às políticas culturais, em especial. E pensando em resistir ao desmonte do patrimônio cultural, a FNA participou da criação do Fórum de Entidades em Defesa do Patrimônio Cultural Brasileiro e vem contribuindo até hoje para o debate em torno da sua reconstrução”, relembra. Criado em outubro de 2019, a entidade tem sido centro de articulação de mais de 25 instituições relacionadas à pauta, se manifestando sobretudo contra a nomeação sem formação e experiência para cargos essenciais na preservação dos bens materiais e imateriais do país.

A presença de profissionais preparados se reflete na opinião de Juliano Loureiro de Carvalho, também analista legislativo e arquiteto na Secretaria de Infraestrutura do Senado Federal. Carvalho assinala que no longo trajeto de reparação, é de extrema importância a participação dos arquitetos e urbanistas ao lado da equipe técnica do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), entidade que sofreu desmontes e severos cortes de recursos durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). “Somos a categoria capaz de ver, de forma ampla e integrada, as questões de urbanização, infraestrutura e funcionalidade. Nesse processo de restauração, é possível que haja aumento nos níveis de segurança, sempre respeitando as características fundamentais e tombadas dos edifícios. Afinal de contas, eles têm essa configuração há 60 anos e só foram invadidos agora. Isto indica que quando a polícia age adequadamente, a arquitetura é suficientemente segura”.

Valorizar o patrimônio nacional é valorizar a sua própria casa
A arquiteta e urbanista, sócia do escritório Escaiola Arquitetura Rara e Conselheira Fiscal da FNA, Juliana Betemps, ressalta que as ações do dia 8 de janeiro refletem ainda a falta de identificação de determinados públicos com a identidade brasileira, acentuando pela pouca importância que a preservação do patrimônio do Brasil tem na agenda dos governos. “Os ataques aos Três Poderes tiveram um teor terrorista, indiscutivelmente. Entretanto, esse comportamento diz muito sobre como parte da população entende e enxerga os bens materiais e imateriais. Se valoriza muito pouco a importância da manutenção e do contato das pessoas com a trajetória histórica e a identidade brasileira”.

De acordo com o Jornal O Globo, há uma lista preliminar dos bens de valor cultural perdidos e danificados. Entre os itens perdidos, um relógio doado a Dom João VI pela corte de Luís XIV, no Planalto; um exemplar raro da Constituição Federal, réplica da edição original da Carta Magna, no STF; diversos presentes protocolares recebidos pelo Congresso Nacional e anteriormente expostos no Salão Verde da Câmara dos Deputados. As obras danificadas incluem a tela “As Mulatas” do artista Di Cavalcanti; a mesa de trabalho do ex-presidente Juscelino Kubitscheck, que foi usada como barricada pelos terroristas; a escultura “A Bailarina”; a escultura “A Justiça”, de Alfredo Ceschiatti, que foi pichada; a escultura “O flautista”, avaliada em R$ 250 mil, do artista plástico Bruno Giorgi; um tapete que, segundo informações do STF, pertenceu à Princesa Isabel.

Matoso ressalta, para além dos objetos artísticos, a gravidade dos danos causados aos edifícios e a necessidade de restaurá-los o quanto antes, “não apenas como uma demonstração da solidez de nossas instituições, mas também de seu caráter transparente, generoso e aberto ao povo”. Para o arquiteto, a recuperação desse patrimônio edificado em sua autenticidade original e histórica é também um “ato de resistência da nossa democracia”.

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

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