A Copa do Mundo não é nossa!

21 junho 2013

A Copa do Mundo não é nossa!

Uma mensagem do SAERGS em apoio às revoltas populares

“No entanto, verifico que quando nos reunimos em assembleias, por precisar a cidade deliberar sobre assunto de construção, mandam chamar arquitetos para opinarem a respeito do edifício a ser levantado; se se trata de construção de navios, recorrem a carpinteiros náuticos, e assim com tudo o mais que eles julgam poder ser ensinado ou aprendido. Porém se qualquer outra pessoa, que eles não consideram profissional, se abalançar a da conselhos, por mais belo que seja, ou rico, ou de boa família, não somente não lhe dão ouvidos, como se riem dele e o pateiam, até que, atemorizado com a assuada, desista de falar (…). É assim que eles se comportam, sempre que se trata de questões técnicas. Quando, porém, a deliberação diz respeito à administração da cidade, qualquer individuo pode levantar-se para emitir opinião, quer seja carpinteiro, quer seja ferreiro, sapateiro, mercador ou marinheiro, rico ou pobre, nobre ou vil, indiferentemente, sem que ninguém apresente objeção, como nos casos anteriores, por pretenderem dar conselhos sem haverem estudado em parte alguma essa matéria.” (PLATÃO, Diálogo Socrático com Protágoras)

A mídia e personalidades conservadoras do país declaravam até bem pouco tempo atrás que pairava um relativo consenso sobre a maravilha em que estavam se transformando as cidades brasileiras, sobretudo a partir da grande oportunidade do momento, o evento da Copa do Mundo. Como tudo que é sólido se desmancha no ar, este discurso desmoronou definitivamente. Foi colocado em xeque. Revelou-se a verdadeira insatisfação generalizada. A disputa pela redução das passagens de ônibus foi como aquela rachadura inicial da barragem que, apesar de pequena, com o tempo a faz ruir por completo inundando a região. As manifestações em todo o país, e em Porto Alegre especialmente, explicitam cruamente o ponto de vista destoante acerca dos falsos benefícios destes eventos, o descontentamento com o valor das passagens, a disputa por um espaço urbano mais sustentável, a inconformidade com a lógica rodoviarista dominante que dirige o atrasado pensamento das administrações públicas municipais sobre a circulação urbana. Como inteligentemente expôs o cartaz de um manifestante, “combater congestionamentos alargando vias é como combater a obesidade afrouxando o cinto”. Mas que pressupostos fundamentavam essa pretensa (e falsa) unanimidade? O professor e pesquisador do IPPUR/UFRJ, Carlos Vainer, provocativamente relembra-nos que por trás das propostas de planejamento urbano e de intervenções na cidade estão presentes, em qualquer ocasião, ideias que se esforçam em legitimar a ganância de empreiteiras, construtoras e empresas do transporte público urbano. Segundo suas próprias palavras, “por trás de todo projeto urbano está presente, de uma maneira ou de outra, uma utopia”. Para Vainer há dois modelos em franco confronto na atualidade. Um é o modelo da cidade-empresa, administrada de maneira a buscar produtividade, prospectando oportunidades e bons negócios. E como quem mais entende de negócios são os empresários, essas cidades deveriam ser administradas e geridas por eles. E, se uma empresa tem dono, está claramente colocado o papel de quem manda e de quem obedece. Os empregados, a rigor, não são chamados a discutir os rumos da empresa e os patrões também não chamam assembleias para votar democraticamente suas decisões centrais. Essa proposta de administração e planejamento das cidades é a que vem fundamentando as decisões ao redor do Planejamento Urbano Brasileiro – incluídos aí os megaeventos como a Copa do Mundo. O outro modelo é o que Vainer chama de modelo de cidade-democrática-conflituosa. Aqui se acredita que os conflitos, ao invés de um obstáculo, são desejáveis e construtores de cidadania. As cidades têm nos seus moradores os protagonistas na definição de rumos e do projeto de cidade do futuro. E é a isso que clamam as ruas. Contrariamente ao que o senso comum pretendia afirmar, e que foi desmoronado com as manifestações populares atuais, fica impossível dizer de antemão quais são os projetos pretendidos e possíveis para as cidades. Não há consenso! Tudo depende de escolhas, opções, pressupostos… E a população tem se sentido fora destes processos. Quem pode responder por estas opções se não os próprios cidadãos? Quem deve responder por estas opções se não os próprios cidadãos? E estes têm colocado claramente sua inconformidade com os projetos que avançam sobre o direito da população de decidir sobre que cidade quer para si. Evidentemente que essa concepção de cidade-democrática-conflituosa não nega a existência dos negócios, tampouco a importância dos técnicos, mas coloca todos em diálogo e disputa, diferentemente das negociatas de gabinete a portas fechadas. Mas como Arquitetos e Urbanistas podem contribuir na transformação desta realidade? Carlos Nelson Ferreira dos Santos, quando fala sobre a função do especialista-técnico (arquiteto e urbanista), defende que esses “tem de assumir um novo papel, dentro de tal perspectiva. Ele é aquele que segue a partida com interesse, procura esclarecer dúvidas e pontos obscuros e funciona como mediador, aconselhando a atualização dos estatutos e modos de agir, à medida que se verifique sua superação”. O quadro técnico, assim, poderia – ou até mesmo deveria – fazer o contraponto às intenções episódicas de tendências aleatórias e necessidades de respostas imediatas, fruto de algum tipo de pressão política ou especulativa ou empresarial. Não é essa uma proposta de retorno da tecnocracia, mas a de dar a oportunidade de um debate fundamentado e da revelação clara de possibilidades para a população. Assim, um dos pontos-chave da democracia estaria contemplado, o da equidade e ampla difusão de conhecimento. Este é o inicio de um protagonismo consciente e efetivo. Deve, assim sendo, haver um quadro técnico com um novo papel. Ele é o que vai poder subsidiar escolhas da população, mediar interesses e participar também dos conflitos, deixando de ser aquele ente presumidamente isento, em algumas hipóteses, e tendencioso às empresas, na maioria dos casos. Processos de planejamento, execução ou qualquer tipo de intervenção na casa de todos, a cidade, devem responder, antes de tudo, a uma pergunta fundamental: é bom pra quem? O Sindicato dos Arquitetos no Estado do Rio Grande do Sul manifesta-se em apoio às manifestações populares que lutam para que as tragédias de concreto e aço que se transformaram as cidades não sejam mais ditadas pelas empreiteiras, pela especulação imobiliária, pelas gananciosas empresas de transporte coletivo, ou seja, por todos aqueles que veem a cidade com olhos de cifrão e não como um espaço para o pleno desenvolvimento e da felicidade dos homens e mulheres. Apoia os que manifestam seu desejo de mudança radical de maneira pacifica, mas engajada.

 

 

Foto: Marcelo Camargo/ABr

© SAERGS · Por Aldeia