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Precarização na AeU é comum em diversos países, mas há exceções

Assim como no Brasil, o trabalho de arquitetos e urbanistas em diversos países segue uma lógica de terceirização e precarização das relações de trabalho. Em uma viagem por quatro continentes, o Fórum Saergs no Mundo do Trabalho reuniu em live, na manhã de sábado (21/11), arquitetos brasileiros que atualmente trabalham nos Estados Unidos, França, Alemanha, Austrália, Portugal e Equador. Conduzido pelo presidente do Saergs, Evandro Babu Medeiros, o debate apresentou um panorama sobre contratos de trabalho, remuneração e valorização profissional no exterior. O Fórum Saergs no Mundo do Trabalho é uma promoção do Sindicato dos Arquitetos no Estado do RS, tem o patrocínio do CAU/RS e apoio da FNA, IAB, Fenea e CUT. Trazendo a realidade dos arquitetos e urbanistas que atuam na Espanha, Francine Ramil conta que a maioria dos arquitetos e urbanistas do país são autônomos assim como no Brasil. Contudo, esses contratos de trabalho trazem seguranças mínimas, como férias e indenização. Contratos formais com vínculo, acrescenta ela, são vislumbrados apenas em escritórios grandes. Admitindo que passou por um pouco de tudo, Francine conta que não foi fácil consolidar-se no mercado. “Aqui temos que sempre mostrar um pouco mais para sermos reconhecidos”, relatou a profissional que atua em Barcelona, uma das cidades mais idolatradas pelos arquitetos em todo mundo. Apesar do preconceito que sofreu por ser latino-americana, Francine admite que se adaptou muito bem ao estilo de vida da Espanha, onde há uma franja social média que permite uma vida confortável. “A diferença entre os que cobram menos e mais não é como no Brasil. Aqui, fica todo mundo dentro da uma mesma camada”. Contudo, na jornada, admite que passou por alguns momentos difíceis. Ela recorda de episódio ocorrido em 2000, quando estava fazendo demonstrações e um homem perguntou: “O que você está fazendo aqui que não está dançando em um discoteca?”. Uma das principais diferenças positivas, cita ela, é em relação à valorização da profissão. “Existe um poder social do arquiteto aqui. O arquiteto é muito mais reconhecido que no Brasil”, pontuou, citando que a sociedade sabe que, ao fazer uma obra, os profissionais de Arquitetura e Urbanismo são necessários. Reconhecimento relatado também pela a arquiteta e urbanista Angélica Rigo,  que atualmente trabalha em Lisboa, Portugal. “Aqui o arquiteto é conhecido. A cidade briga para ter e contratar determinado profissional”, ressalta. No entanto, a flexibilização dos direitos trabalhistas também é uma constante. “O arquiteto não é contratado. Geralmente, é autônomo e utiliza o que eles chamam de recibo verde”. Em relação aos sistemas de contratação, Angélica informou que há o chamado “Contrato a termo”, no qual existe um período determinado e que permite  à empresa demitir sem ter que pagar os tributos de uma demissão. Ele pode ser renovado por três vezes. Já o chamado “Contrato sem termo” é definitivo e carrega consigo mais direitos.  “Eu fui contratada por um contrato a termo e, depois das renovações, entrei no contrato sem termo, que é mais estável. A realidade aqui é bem parecida com a do Brasil e da Espanha”, conta, garantindo que não sentiu preconceito por ser brasileira e que as diferenças culturais geralmente viram assunto de descontração. Mas nem toda a Europa segue esse padrão de contratação. A arquiteta e urbanista Lis Lagoas, atualmente situada em Paris, informa que a situação na França é bem diferente. Contratada por uma grande empresa francesa e sem diploma validado naquele país, ela já atua com projetos para todo o mundo. Os contratos lá, explica a profissional, são mais rígidos. “A figura do arquiteto aqui é muito importante, mais importante que o engenheiro. Somos classe média como todas as outras profissões, igual aos médicos. Aqui também há discrepâncias, mas as coisas são mais iguais”, salienta. Na França, o salário varia com os conhecimentos adquiridos. Há diferentes degraus profissionais que diferenciam o desenhista, o arquiteto, o arquiteto de interiores e o chefe de projeto, por exemplo. “Cada step tem um salário mínimo específico e há contratos de trabalho”, confirma. Apesar de admitir que existem contratos de freelancer, no qual as empresas não são tão oneradas quanto em uma relação formal de trabalho, esses são carregados de direitos sociais. E raramente encontra-se arquitetos e urbanistas formados nessa condição. Existem os chamados contratos por tempo determinado, onde há vínculo estabelecido e os CDI, que são os contratos por tempo indeterminado. “No CDI, é muito difícil de ser demitido. Aqui na França, o trabalhador tem mais segurança e proteção do estado”, destaca. Sobre o dia a dia de trabalho, Lis informa que a fiscalização é maior em assuntos relevantes, como a questão de controle de incêndios. Os processos de aprovação são demorados e, não raras vezes, estabelecimentos comerciais demoram a abrir as portas à espera de validação. Admitindo que ser imigrante vem com uma cobrança extra de qualidade, ela conta que a empresa onde trabalha é repleta de imigrantes, o que torna o ambiente agradável. “A gente não pode cometer erros, tem que ser melhor para competir com iguais”. Entre os grandes aprendizados que recebeu do mercado de trabalho francês, explica Lis, é o respeito ao trabalhador e a divisão clara entre vida pessoal e profissional. “A diferença mais marcante e interessante é que ninguém trabalha no final de semana. Estou aprendendo aqui que é assim que tem que ser”. O mercado de Sidney também rendeu-se aos brasileiros. A arquiteta Vanessa dos Santos, formada em 2008, conta que, quando começou na empresa, foi contratada para uma vaga inferior e que, em seis meses, foi promovida.  “Eles me procuraram e disseram que eu tinha mais experiência do que imaginavam e corrigiram a vaga sem eu ter que falar nada. Foi o justo, o certo”. Atualmente trabalhando com edificação de prédios residenciais de 180 apartamentos, é a arquiteta responsável por grandes projetos. Trabalho que, indica, é bem regulamentado e está subordinado a várias limitações de legislação. “Há vários tipos de normas técnicas a serem seguidas e essa é a maior dificuldade do trabalho aqui. São bem mais leis do que no Brasil”, indica. Outro brasileiro em Sidney é Fabrício Siqueira que, além de trabalhar com o setor, ainda dá aulas. Assim como Vanessa, ele indica uma maior regulamentação do mercado de trabalho. Uma das grandes diferenças em relação ao Brasil, citou ele, é o aumento severo da responsabilidade técnica. “Com as mudança climáticas, vieram novas regulamentações para melhorar a performance e surgiu uma nova categoria de cientista ambiental. Também se viu aumentar o papel do engenheiro de incêndio”, conta Fabrício. O arquiteto Eduardo Machiavelli relatou sua experiência profissional da Itália e Alemanha. Na Europa há três anos, ele confirmou que, na Itália, também é difícil estabelecer uma relação formal de trabalho similar ao que, no Brasil, conhecemos como carteira assinada. Na Alemanha, citou ele, as empresas tem estruturas similares aos sindicatos dentro de cada empresa, encarregando um funcionário a representar os demais no conselho de administração das empresas. Em termos de remuneração, indicou ele, um profissional com cinco anos de atuação recebe entre 1.800 a 2 mil euros mensais. Com 20 anos, a soma salta para 3 mil euros mensais. Formado em 1997 na UFRGS, o arquiteto e urbanista Sebastian Sevilla voltou ao Equador para atuar em Arquitetura e Urbanismo. A maioria dos profissionais, cita ele, são contratados por projeto. Segundo ele, há muita dificuldade de aprovar projetos em grandes centros urbanos sendo profissional do interior. Segundo ele, as lei trabalhistas no Equador são muito complexas mas existem, sim, os contratos temporários e probatórios. Para falar sobre a realidade do mercado nos Estados Unidos, Laura Dueñas participou da live do Saergs. Com atuação há 15 anos, ela trabalha em um grande escritório em Boston. Uma de suas conquistas é o de atuar na liderança de uma equipe. “Não sou apenas desenhista. Demorou 10 anos para atuar na certificação de interiores”, conta. Mesmo assim, ela segue na luta por teu seu número de registro para Interiores no mercado norte-americano, o que espera conseguir em breve. Com ele, admite ela, devem surgir novas oportunidades e uma remuneração melhor. No início, recorda ela, que também trabalhou na Itália, não ganhava os melhores projetos ou contato com os clientes porque achava que não era apropriado. “O sotaque carregado também atrapalhou. Depois de 14 anos, estou mais confortável no mercado”, diz. Confira a live completa clicando aqui.